Desapego, imprevisto e aventura: mochilando pelo sul da Tailândia

Passar por perrengues em viagem é bem comum para quem já se aventura há algum tempo pelo mundo. Ficar horas em aeroportos, dormir em quartos nem tão bonitos assim, encontrar gente estranha: são algumas das histórias cotidianas dos viajantes. O que a gente não espera – e não espera mesmo! – é que podemos ficar doentes, ou nos machucarmos, ou qualquer imprevisto relacionado à saúde. Muitos itens da minha lista de prioridades em viagens se tornaram irrelevantes depois que aprendi na prática a importância de ter um seguro saúde. Além de aprender que o que “vem em seguida pode não ser tão fácil” em uma viagem, aprendi que precisamos suportar o peso do que carregamos – literalmente – para que a aventura seja mais legal. Aqui eu vou contar o lado bom e o lado ruim da nossa viagem pela Tailândia.

A trip aconteceu em dezembro de 2012, ao final de uma aventura de dois anos na Austrália. Cercada por águas cor de esmeralda e pontuada por muitas ilhas, a Tailândia reserva muitas surpresas. Faz calor o ano todo, exceto nas regiões montanhosas. Os meses com maior incidência de chuvas vão de maio a outubro. A alta temporada abrande os meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Escolhemos o mês de dezembro, e decidimos explorar o sul do país. Nosso roteiro incluiu a praia mais famosa e movimentada de Phuket Island, por 7 dias, e um dos lugares considerados mais belos do mundo, Phi Phi Island, que é formada por uma parte ao sul (Koh Phi Phi Don) e uma parte ao norte (Koh Phi Phi Leh), onde ficamos por mais 10 dias.

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Viajar pela Tailândia é embarcar em um universo fantástico de cores, sons e sabores exóticos. Comidas esquisitas como larvas e gafanhotos fritos são vendidos em muitas feirinhas ao ar livre. As pessoas são alegres e muito simpáticas. Há muita variedade de hotéis, em boas localizações e com todas as comodidades e luxos a preços muito razoáveis comparados com padrões europeus, por exemplo. As guest-houses, os bangalôs e as pousadas familiares são charmosas opções para quem quer ficar em meio a natureza.

Por ser um país budista, é possível visitar vários templos sagrados. O país também é famoso pelas massagens. Você pode fazer massagem com as tailandesas altamente qualificadas em lugares caros e elegantes, ou fazer massagens igualmente relaxantes em esteiras na beira da praia. Mas grande parte das massagistas também oferecem serviços adicionais, já que a prostituição na Tailândia é muito grande.

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Nossa primeira parada no país foi na ilha de Phuket, a maior da Tailândia. Composta de longas praias de areia branca e encantadora vegetação tropical, Phuket concentra também uma agitada vida noturna, excelente comida e muitas lojas com artigos baratos (e às vezes falsificados) que são um convite à extravagância. A temperatura varia de 27 a 32 graus na época do ano que escolhemos para conhecer o lugar. Em Phuket, o transporte é feito, basicamente, de ônibus, taxi ou tuk-tuk, barcos e ferries e uma espécie de ônibus aberto, com 20 lugares, tipo aqueles usados para fazer safári.

Ficamos durante sete dias na praia de Patong, a mais famosa e visitada da ilha. Escolhemos um hotel de médio porte, com muito conforto e uma incrível combinação de bom preço, localização e serviços. Além de visitar a praia e conhecer os lugares da redondeza, fizemos também um safári pela floresta montanhosa de Phang Nga.

O safári foi um dia de passeios ao norte da ilha de Phuket, que incluiu o Elephant Trekking (passeio de elefante na montanha). Os tratadores garantiram que os elefantes descem apenas três vezes por dia e não sofrem nenhum tipo de maus tratos. O tour também oferece o Bamboo Rafting, onde é possível descer as corredeiras de um rio com uma jangada feita de bambu. Além disso, no mesmo dia de safári, conhecemos a Sarasin Bridge, o Tsunami Memorial e o Cave Temple, um templo budista que fica dentro de uma caverna, e onde é possível alimentar os macacos que vivem por lá. Ao final do dia, é oferecido um jantar com autêntica Thai Food, em um restaurante local.

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De Phuket pegamos um barco rumo a Phi Phi Island, ou Koh Phi Phi, na língua nativa. Phi Phi Don é a ilha principal, onde ficam os hotéis, e Phi Phi Leh a ilha menor, onde não é possível ficar hospedado – apenas visitar durante o dia, mediante o pagamento de uma taxa. O lugar é famoso pelas praias paradisíacas, águas turquesa e paisagens de cinema. Não é a toa que serviu como cenário para o filme A praia (1999) com Leonardo di Caprio como protagonista. O filme foi feito na Maya Bay, uma praia cercada de paredões e natureza exuberante. A paisagem é tão impressionante que a gente passou horas apenas olhando pro mar e sentindo a energia do lugar .

A ilha de Phi Phi Don é composta pelas praias de Loh Dalum Bay (onde ficamos hospedados), Ton Sai Bay (onde fica o píer de chegada dos barcos), Long Beach (a mais bonita, na minha opinião), Ao Poh Bay e Monkey Beach (onde os macacos ficam realmente soltos pela praia). Tomar banho de mar a noite é uma das melhores coisas a se fazer por lá: a água é quentinha e a profundidade se mantém baixa por uma longa e segura distância. À noite, as festas à beira-mar são incríveis. Os turistas adoram os shows de pirotecnia na praia, que acontecem diariamente. Os bares ficam lotados e no meio da rua são vendidos baldinhos com diversos tipos de bebidas.

A ilha de Phi Phi Don é pequena, não tem carros e os moradores utilizam bicicletas para se locomover. O tempo todo a gente se acostuma a ouvir os barulhos das buzinas e os constantes pedidos para sair da frente e dar lugar às bicicletas.

Phi Phi foi um dos lugares mais destruídos pelo tsunami em 2004. Ficamos hospedados na praia de Loh Dalum Bay, perto da rota de evacuação em caso de tsunami. Os moradores locais tem histórias incríveis para contar sobre o acontecimento que mudou a vida de todos por lá. Muita gente perdeu a família nesta tragédia.

Eu conversei com o chef do restaurante italiano Ciao Bella, um dos mais tradicionais da ilha. Umberto e seu filho Gianmarco contaram-me alguns detalhes do Tsunami, ocorrido oito anos antes (estivemos em Phi Phi exatamente no dia 26 de dezembro de 2012, mesma data em que o Tsunami devastou a ilha em 2004). Os italianos, donos do restaurante, disseram-nos que o filme “O impossível”, recém-lançado naquele mês em que estávamos viajando, mostra com uma realidade impressionante o que aconteceu naquele dia. O desespero era tanto que a família deles correu para o View Point, um lugar em cima do morro que cerca a ilha, e por lá ficou, durante quatro dias, sem água e sem comida, esperando pelo resgate. Confesso que me emocionei muito ouvindo esses depoimentos.

O que veio depois

Ufa! Que a Tailândia é linda, não temos dúvida. E deixa só eu contar o quanto fui orgulhosa de mim mesma durante a nossa trip pelo sudeste asiático (que incluiu a Indonésia e a Malásia no roteiro): ficamos quase um mês com apenas uma mochila nas costas. E não foi uma mochila grande não, foi uma mo-chi-li-nha. Libertar-se da ideia de carregar coisas demais e ter apenas o necessário para a sobrevivência foi um desafio e tanto pra mim. Eu sempre fui dessas que carregam a vida quando estão fora de casa. Mas esse hábito evaporou nessa trip e a partir dessa experiência decido que só levo em viagens aquilo que posso carregar comigo (sem ter que pedir ajuda pra ninguém).

Agora entra a parte chata da história: faltando alguns dias para o nosso retorno, Alessandro, meu marido, escorregou em uma pedra na praia e cortou profundamente a perna esquerda. Sem seguro saúde (quando compramos as passagens, não incluímos o seguro – e esse foi o pior erro de nossas vidas), fomos parar em um hospital precário na ilha de Phi Phi Don, onde ele levou 12 pontos, e a conta foi salgadíssima. Primeira lição da vida como viajantes foi aprendida: nunca ir para outro país sem seguro saúde. Isso serviu para aprendermos que os imprevistos acontecem, e temos que estar sempre atentos para isso.

Agora tenho certeza de que sempre podemos aprender algo em uma viagem – e o quanto algumas são transformadoras. Além de aprender sobre os imprevistos, a viagem pela Tailândia trouxe o hábito do desapego, prática que trago comigo para o resto de meus dias. Os costumes, o povo, as paisagens naturais e todas as diferenças culturais também fizeram dessa viagem uma experiência incrível.

E você, tem histórias de imprevistos ou perrengues para contar? Mande um e-mail para o contato@projetonuvemdecogumelo.com ou deixe seu comentário! Beijos e até a próxima!