Por que viajar ajuda a ter fé na humanidade

Por Sabrina Didoné

Rata de biblioteca, Sabrina decidiu pular a janela e viajar na vida real, para além das páginas dos livros. Já sonhou ser repórter de revistas para escrever sobre a realidade de países distantes, mas percebeu que o jornalismo de viagens é o que quer exercer. Confira abaixo o texto escrito especialmente para o Projeto Nuvem de Cogumelo.

Situação número 1: o crush me deixou sozinha de noite nas ruas de Londres depois que eu não quis ir a “outro lugar” com ele. Situação número 2: alguém correndo atrás de mim numa rua escura da capital britânica de madrugada. Situação número 3: bebi uma pint a mais e não faço ideia de onde é o ponto do night bus para ir para casa. Todas essas situações eu resolvi contando com um fator: o humano.

Viajar é excelente, é transformador. Mas ninguém nunca te conta os problemas que você enfrenta quando está longe de casa. Viajar não é só flores, como acredita quem nunca viaja – ou só viaja com a CVC. E também ninguém nunca te conta como é esse poder transformador. Ok, transforma, mas em que nível, em que sentido? Como se dá essa ocorrência?

O meu intercâmbio em Londres me modificou de muitas formas, mas o que quero contar hoje é a história de como me levou a acreditar no ser humano. Sempre achei que era uma solitária irremediável, nunca tive muito talento para fazer amizades facilmente. Eu achava, mesmo, que estaria para sempre sozinha, por mais que estivesse em uma multidão, por mais que estivesse numa das maiores cidades do mundo, cercada por oito milhões de pessoas. Mas aí, nesse intercâmbio de 3 meses, eu percebi que posso ser solitária, mas jamais estarei sozinha.

Isso porque, sempre, quando eu mais precisava, aparecia alguém para me ajudar. Podia ser um simpático motorista de ônibus, um transeunte que via meu olhar aparvalhado para todos os lados, uma moça que ouviu eu pedir informações na estação de trem.

Parece coisa do além, coincidência, destino? Acho que não. Acho que há algo que nos conecta como seres humanos mesmo, na nossa essência. Pessoas boas estão por todos os lugares, diz a coca-cola que eles são a maioria, e eu gosto de acreditar nisso. Sempre vai ter alguém para perceber a sua necessidade, para notar que você está perdido e precisa de ajuda. Alguém vai estender a mão quando você precisar. Experimente desmaiar na rua. Ou só levar um tombo num estádio de futebol: você será erguido por uma multidão quase antes de perceber que tinha caído – acredite, isso já aconteceu comigo.

Certo, isso não acontece somente em viagens. Mas foi em viagens que eu percebi o óbvio que saltava aos olhos. Foi longe de casa, sozinha e com medo que notei o quanto essa ajuda se intensifica. E é claro que, a milhas e milhas do lar, tem um outro fator que destaca essa tendência de ajuda que podemos contar com a humanidade: você se torna mais aberto a tudo. Talvez, na sua cidade, você não caminharia com alguém que você não conhece, por uma viela escura, que se ofereceu para te mostrar onde é o ponto de ônibus mais próximo. Mas longe de casa, em um país estrangeiro que você não domina a língua?

Foi assim que resolvi a situação de ter bebido uma pint a mais, e por isso perdido o último metrô para chegar em casa – tendo ido até a metade do caminho, confusa em um ponto aleatório qualquer de Londres. A moça só queria ajudar, ela morava nas redondezas e me ouviu pedir informações na estação. E foi perdendo o último metrô que descobri que podia contar com os motoristas de ônibus para me dar informações precisas de como chegar em casa, inclusive contando com caronas até o ponto onde passava o meu night bus. Foi esperando pra ouvir quem corria atrás de mim que descobri que tinha deixado cair vinte libras (equivalente a uns R$ 80 na época, em 2013).

Isso jamais vai justificar o descuido, e também não significa que nada nunca vai te acontecer de ruim em uma viagem. Porém, para pequenos problemas e situações do cotidiano, é bom ter um pouco de fé na humanidade. Essa percepção começou a se formar na minha cabeça em Londres. Mas depois se espalhou para outras viagens: quando eu mais precisava, alguém me ajudava, um “anjo”, digamos assim, apelando para o significado da palavra, mas não para o sentido religioso.

Viajar é transformador. Como? Para mim, foi me abrindo o tempo todo para o novo, sobretudo em questões de confiança. E aprendi que manter a fé na humanidade, às vezes, é um bom negócio.