Somos uma geração com o poder da escolha

Por Sabrina Didoné

Rata de biblioteca, Sabrina decidiu pular a janela e viajar na vida real, para além das páginas dos livros. Confira abaixo o texto escrito especialmente para o Projeto Nuvem de Cogumelo.

Aceitemos. À nossa geração cabe redescobrir caminhos. Nunca antes jovens adultos tiveram tantas opções de escolha. Querendo ou não, a transformação radical pela qual passa a sociedade afeta a cada um de nós. Mesmo que você decida que vai querer seguir o caminho de seus avós, casando cedo, com muitos filhos, ainda assim, em algum momento, você pôde olhar para o lado e questionar essa decisão. A angústia das escolhas vai dominar – já domina – os nossos dias. Você pode ser o que você quiser é o nosso novo mantra. Isso é ótimo num primeiro momento, até que o voo de liberdade se transforma em queda livre.

Eu acredito que a nossa geração vai ser muito louvada no futuro. Eu queria conseguir enxergar o que estamos construindo aqui e agora daqui a 100 anos. Talvez essa geração entre para os livros de história como uma precursora. Assim como os hippies da década de 1960 iniciaram a revolução sexual, a nossa tarefa vai ser abrir as portas para outro tipo de mundo. Porque é a nós que cabe encontrar novos modelos de trabalho, de relacionamento, de vida.

Até aqui, trabalho significava bater ponto, e ficar por décadas na mesma empresa. Até aqui, relacionamento significava homem e mulher, casamento e filhos. Até aqui, a vida era vivida nas brechas, nos finais de semana e nas férias. Claro que, em todos os momentos da história, sempre houve aqueles que conseguiram quebrar esses paradigmas e essas fronteiras, mas a um custo social muito alto. Eles eram considerados loucos, eram excluídos da sociedade. Agora, a gente tem centenas de opções a cada pequeno passo de nossa jornada. E não é que o julgamento social não continue marcando presença. Mas ele é mais brando, porque a cabeça das pessoas começa a se abrir para o novo.

A nossa geração está vivendo o início dessa grande transformação, protagonizada sobretudo pelos novos meios de comunicação. Antes, não bastava querer trabalhar como nômade digital, porque, simplesmente, não exisita banda larga. A tecnologia nos possibilita ir muito além nas escolhas agora. Só que todo início é complicado. Os inícios são difíceis, ficamos em dúvida, duvidamos que vai dar certo, vamos na base da tentativa e do erro, porque nunca ninguém fez isso antes para agora nos indicar o caminho. Estamos numa fase que queremos mudar, mas nem sabemos mesmo se é certo, por vezes nos prendemos aos velhos costumes e tradições, porque estamos nessa fase de transição onde ainda lembramos do que nos foi ensinado. Transgredir as regras nunca foi fácil, quebrar paradigmas exige coragem para tentar, coragem para saber que podemos quebrar a cara.

E então a angústia das escolhas vai nos devorar de uma forma nunca antes vista. Vai caber à nossa geração segurar esse rojão, começar esse caminho tão, tão livre. Porque já não há mais ninguém ditando o que você deve fazer a cada passo do caminho.

Vai ser difícil. Alguns de nós vão optar pelo modelo antigo – e não há nada de errado com isso. Mas mesmo esses que quiserem ficar nos velhos moldes vão ser questionados. Tudo será questionado, e isso é bom, porque é questionando, colocando o dedo na ferida que se adquire autoconhecimento, é assim que nos tornamos conscientes das escolhas. Já não queremos mais ser robôs programados, fantoches da sociedade. Queremos ter poder de decisão. É claro que o capitalismo vai tentar inserir de alguma forma nisso, a publicidade vai tentar ditar as novas tendências. Mas devemos resistir e continuar nos questionando a cada passo. A cada nova tendência.

Essa tendência aí de se jogar no mundo e ver o máximo de países possíveis enquanto trabalha como nômade digital é para você? Ou você já entendeu que rende bem mais quando precisa cumprir metas em uma empresa? O que cabe na sua vida, na sua personalidade, com as suas espectativas de vida? O autoconhecimento realmente manda agora.

Quando o mundo inteiro está em transformação, a gente precisa ainda mais de autoconhecimento para não cair na transformação alheia, entrar de gaiato, e ser só mais um espectador da história. A transformação é boa quando é sua, quando vem de dentro pra fora. Ou seja, cabe à nossa geração ainda mais uma tarefa, além de todas as monumentais que já nos são exigidas, além de não desligar, da atualização constante, da capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, de prestar atenção e de não perder um segundo para construir seja lá o que for que nos espera no futuro. Cabe a nós inventar uma nova maneira de agir para resolver os nossos conflitos. Mesmo na incerteza, caberá a nós achar um novo caminho para a sociedade. Afinal, tudo está em mudança, desde as formas de trabalho, até como nos relacionamos com parceiros amorosos.

Nossa geração precisará tomar decisões que jamais saberemos se são acertadas. Pois nunca sabemos se uma decisão é acertada no momento que a tomamos. Só conseguimos perceber o certo e o errado devido às suas consequências de futuro. É, as novas gerações realmente terão muito o que nos agradecer.