Comer, rezar, amar… em Bali

Quando nosso visto de estudos terminou, ao final de dois anos vivendo na Austrália, eu tinha a sensação de estar dividida: parte de mim queria retornar ao Brasil, para reencontrar os amigos, a família e minha casa, mas uma parte imensa de mim não estava preparada para deixar o lugar que tanto me trouxe felicidade. Para não ter a sensação de que estava deixando para trás algo tão lindo, eu queria, da melhor maneira possível, resgatar a verdade sobre a minha própria vida. Fazer a transição. E foi por esse motivo que decidi, junto com meu amor, passar um mês viajando pela Ásia, antes de retornar ao Brasil.

Fazer um mochilão pelo sudeste asiático, passando por países como Malásia, Tailândia e Indonésia, teve um significado importante: algumas viagens, as quais escolhemos instintivamente, desempenham um papel intenso e crucial para entendermos quem somos e por que estamos aqui. Tal como no livro “Comer, rezar, amar” de Elizabeth Gilbert, constatamos que uma viagem pode ser uma jornada de descobertas. Comer, rezar e amar são verbos interessantes para conhecer cada aspecto do nosso ser – nossos desejos, nossos impulsos e nossos sonhos mais secretos.

Durante uma semana na ilha de Bali, na Indonésia, comemos, rezamos e amamos, imersos em uma cultura totalmente diferente da nossa. Conhecida como “a manhã do mundo” e “a morada dos deuses”, Bali é uma ilha em formato de tartaruga com mais de 5 mil quilômetros quadrados. É uma das 13.600 ilhas que compõe a Indonésia. O clima na ilha é quente e úmido durante quase o ano todo, e a temperatura não baixa dos 30 graus. É realmente muito quente e abafado, e pela primeira vez na minha vida senti um calor extremo.

Escolhemos Kuta, a região mais movimentada da ilha, para ficarmos hospedados. O hotel tinha a mesma arquitetura e o clima daquele no qual a Liz do filme se hospedou. Primeira impressão: o trânsito é caótico por lá. Com mais de 3 milhões de habitantes e cerca de 1 milhão de turistas por mês, dá para imaginar como é o movimento na ilha. Bali tem tantas motocicletas nas ruas que é comum ver cenas em que crianças andam na garupa de pai e mãe, sem capacete. Também é comum ver três pessoas na mesma moto, assim como animais. Loucura.

Outra coisa louca: com apenas 120 dólares já éramos milionários em Bali: 1.200.000 (um milhão e duzentas mil) rupias. Sim, o dinheiro deles é muito desvalorizado em relação ao dólar americano. Mas isso não torna o lugar tão barato assim para o turista: ao perceber que éramos de outro país, logo eles tratavam de superfaturar o preço das coisas. O tempo todo tínhamos que barganhar os valores.

O lado lindo: é impossível não se sentir introspectivo e espiritualizado na ilha. O povo balinês cultua tradições milenares, e a religião exerce um papel muito forte no cotidiano. Há templos por todos os lados. Há mais templos do que casas, inclusive! A religião é o hindu-budismo, e é diferente do hinduísmo de outros países, como a Índia, por exemplo. Os balineses acreditam em magia e no poder dos espíritos. Basta sair nas ruas para comprovar isso. As mulheres, por exemplo, fazem rituais diários (ao amanhecer, ao meio-dia e no fim da tarde) com oferendas feitas de arroz, uma rodela de banana, incenso, moedas e flores, tudo isso dentro de uma bandejinha confeccionada com folhas secas, com o objetivo de agradecer aos deuses pela vida, alimento e proteção. Há oferendas como essa em todos os lugares, inclusive nos balcões das grandes redes de fast food, como McDonald’s e Pizza Hut!

Este contato com a espiritualidade nos trouxe algo que ainda não tínhamos vivido em outro país: a delicada tarefa de revisar nossa vida. Pensar no futuro. Se antes a gente tinha a tendência de tomar decisões práticas sobre o futuro, algo semelhante a mudar de emprego, criar listas de tarefas a cumprir ou limpar armários, nessa viagem de autoconhecimento confrontamos várias versões da questão: o que quero fazer com o resto da minha vida?

Foi durante essa estadia em Bali que a gente fez as pazes com a possibilidade de voltar para o Brasil de peito aberto, olhando para além dos limites das nossas vozes internas de nostalgia por algo que estávamos deixando para trás. Assim como ocorreu com a autora Elizabeth Gilbert, quando sua vida prática estava pouco inspiradora, ela foi obrigada a olhar para dentro de si mesma – comendo, rezando e amando.

Eu diria que a questão cultural é a mais interessante na ilha. As praias, na realidade, não são as melhores do mundo. Durante os sete dias em que estivemos em Bali, visitamos alguns dos pontos mais badalados da parte sul da ilha. Além de Kuta Beach, fomos de glass boat (um barco com fundo de vidro) para a Turtle Island, onde conhecemos uma fazenda de tartarugas de até 300 anos de vida, ou seja, gigantes. Também conhecemos a Sandy Beach, na Dreamland, de longe a praia mais bonita do sul. Mas um dos passeios mais interessantes que fizemos foi ao Uluwatu Temple, um templo a 200 metros acima do oceano, praticamente em ruínas, onde habitam macaquinhos simpáticos e onde só é permitido entrar com vestes cobrindo as pernas.

De lá, seguimos direto para a Tailândia, como conto aqui. Essa outra parte da viagem também foi importante por dois motivos: aprender a desapegar e aprender a lidar com imprevistos. Vou encerrar este texto com a frase que venho repetindo muito por aqui: cada viagem que fizemos pode ser transformadora… basta estar aberto para que isso aconteça. Vejo você na próxima semana.