Desacelerar para transformar

Por Sabrina Didoné 

Jornalista, rata de biblioteca, Sabrina decidiu pular a janela e viajar na vida real, para além das páginas dos livros. Confira abaixo o texto escrito especialmente para o Projeto Nuvem de Cogumelo.

Somos inundados por informações a cada segundo. Vivemos em um novo regime 24/7. Conectados o tempo todo, a todo instante recebemos novas informações. Desde as relevantes, passando por aquelas que nos interessam profissionalmente, até notícias sobre amigos. Se olharmos o celular de madrugada só pra ver que horas são, já vamos ser bombardeados por itens que piscam na tela e urgem por atenção. Urgência, sim, tudo é pra ontem, tudo é imediato, e nada é desculpa para atraso, já que a internet permite esse imediatismo. Mas nessa banalização da urgência, como distinguir o essencial do supérfluo? Porque o fruto dessa corrida é mais do que óbvia: a ansiedade, essa que promete ser o novo mal do século.

E correndo de um lado para o outro, tentando dar conta de tudo, pode ser que estejamos ficando apáticos. Não apáticos porque não queremos fazer nada. Mas um novo tipo de apatia: aquela que fazemos tanto, corremos tanto, pulamos de um compromisso a outro, que já não paramos mais para refletir sobre nada. É uma apatia de pensamento, portanto, de parar para entender o porquê de tantas coisas, e de entender o que estamos fazendo e como estamos vivendo.

O que preocupa é que não nos cabe mais só estar atualizados profissionalmente. Também é necessário estar super bem informados sobre o que ocorre no mundo – afinal, informação sempre foi poder. Ainda, tem milhões de livros, séries, filmes que você-precisa-ver. Nessa época de Netflix, somos inundados por dicas, sugestões, obrigações. Tem que ver porque todo mundo viu, precisa estar ligado pra poder comentar depois, discutir racionalmente.

Mas e, se, menos for mais? E se você não souber que ocorreu um terremoto no Japão 10 minutos depois do acontecimento? E se você não souber nem amanhã? E se você não tiver ouvido a música mais bombada do verão? O que de tão grave pode ocorrer na sua vida? Não defendo aqui uma volta à desinformação, nem estar alienado perante o que ocorre por aí, seja perto ou longe de você. Com certeza, informação é poder. E a educação é cada vez mais necessária. Mas não seria melhor ajustar o foco? Tentar estudar profundamente algumas questões, ao invés de saber superficialmente sobre tudo? Ao invés de só ler as manchetes no Twitter, não seria melhor, de fato, abrir o texto e ler as matérias completas?

E então se percebe que a curadoria de conteúdo é cada vez mais importante. Selecionar o que importa para você, para a sua vida. Parar para refletir, justamente. Entender o que cabe em cada hora da vida. E perceber que é impossível acompanhar a velocidade que as informações exigem. Provavelmente, essa desaceleração pode trazer uma sensação de paz. Contudo, ela é uma transformação, e toda transformação precisa de calma e de ajustes no início. Porque, de cara, pode gerar ainda mais ansiedade por tudo que se está perdendo, ao não acompanhar tudo imediatamente. Mas depois se percebe que um monte de coisas nem fazem tanta falta assim. É quase como esse texto aqui, que fala sobre desapegar de objetos que não precisamos. Bem, há informações que a gente não precisa também consumir imediatamente, séries que não precisamos assistir só porque todo mundo está vendo. Vale mais o que faz sentido internamente.

Quanto a mim, já entendi que tenho uma pressa desenfreada por tudo, quero ver tudo, saber de tudo. Só que percebi que essa minha corrida nem é por medo de perder a informação, nem por cada dia que passa me deixar mais velha. É por medo de que, se eu parar, a apatia me vença. Que eu fique parada e já nem renda mais, não queira mais nada. Bem assim mesmo, como a crítica de cinema Isadora Sinay me ensinou nesse texto aqui.

Mas percebi que é bobagem esse meu medo de, se eu parar, nunca mais recomeço. Como tudo na vida, a dose certa é o equilíbrio. Nessa minha transformação, vou saindo do casulo aos poucos e percebendo que, se não postar hoje, posto amanhã ou depois. A informação bem fundamentada vale a qualquer momento. Para uma jornalista, isso é sim uma grande mudança de pensamento. Mas o desafio é recompensador porque, dessa forma, posso romper com outro tipo de apatia, aquela que a Eliane Brum profetiza que se abate sobre nós, a de não refletir exatamente pelo excesso que nos cerca.