Não é mudando de país que os problemas somem

Por Sabrina Didoné

Viajar te faz ver que outros locais também têm problemas. Se você tem problemas aqui, eles vão continuar existindo lá. Se aqui você não lida bem com sua família, tem problemas financeiros por gastar demais, o casamento não anda bem…adivinha? Não é mudando de continente que tudo isso vai sumir. O problema, muitas vezes, não é geográfico. Sempre digo que o problema de viajar é que eu ainda tenho que levar a mim mesma – e toda a carga que isso implica. Todos os meus medos, neuroses, ansiedades vão comigo.

No início do livro “A arte de viajar”, o filósofo suíço Alain de Botton descreve uma viagem à ilha de Barbados. E revela a sua dificuldade em relaxar. “Posso ter notado alguns pássaros cortando o ar em sua excitação matinal, mas minha consciência de sua presença foi comprometida por outros fatores, despropositados e sem relação entre si, como uma dor de garganta que desenvolvi durante o voo, a preocupação de não ter informado a um colega que estaria ausente, uma pressão entre as têmporas e a necessidade cada vez mais urgente de uma ida ao banheiro. Um fato decisivo, mas até então ignorado, surgia pela primeira vez: inadvertidamente, eu me levara comigo para a ilha”.

Quando a gente viaja a lazer, é uma coisa, a rotina é só se preocupar com o próximo passeio ou a melhor foto, mesmo. Mas experimente morar um tempo nesse país para ver os problemas começarem a surgir. Todas as suas angústias voltam. E as vezes até piores. O casamento anda bambo? Experimente morar longe e ter que conviver unicamente com o parceiro, já que, às vezes, no início, é difícil fazer novos amigos e a família agora está distante. A profissão na qual se graduou não te agrada? Experimente descer do salto e adotar profissões consideradas básicas. O metrô em São Paulo é lotado? Em Londres, no horário do rush, também é. Quando eu fiz meu intercâmbio por lá, às 17h eu precisava deixar passar vários trens que eram o meu destino, pois eu não tinha como entrar na porta. Ah, sim, isso também acontece por lá. Está certo que lá tem muito mais estações, mais trens, mais rápido. Mas o trem também quebra pelo caminho. Ou seja, nem tudo é perfeito em todos os lugares do mundo.

É fácil nos esquecermos de nós mesmos quando planejamos uma viagem. É maravilhosa essa pausa na realidade, essa idealização de que lá, em outro continente, tudo vai ser melhor. E até saudável, em certa medida, pois nos faz até sermos mais felizes no cotidiano e nos faz suportar de uma maneira mais leve o que precisamos fazer. Isso me lembra muito o livro “Foi apenas um sonho”, que também deu origem ao excelente filme com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio nos papéis principais. Casados e com dois filhos, eles estão cansados da rotina no subúrbio, até que começam a planejar uma maravilhosa mudança a Paris, onde ela vai trabalhar para deixar ele com tempo para descobrir o que gostaria de fazer com a sua criatividade. Tudo vai ser tão melhor em Paris, sonham eles. Tudo vai ser diferente! O final do filme? Ah, bem, assista. Com coragem, pois é daqueles filmes que deixam a gente pensando por meses.

Às vezes, morar em outro continente muda a vida mesmo, basta ver esse montão de gente que vai viver longe e nunca mais quer voltar. Mas tudo porque uma viagem dessas pode transformar as pessoas. Não há mudança geográfica que resista a uma perpetuação de atitudes e sentimentos negativos – mesmo o lugar mais maravilhoso do mundo pode ser péssimo se estivermos péssimos internamente!